
Qual a importância da tecnologia assistiva para facilitação da marcha de bebês e crianças pequenas.
QUANDO ESPERAMOS QUE OS BEBÊS COMECEM A SE COLOCAR EM PÉ?
Normalmente os bebês começam a se puxar para em pé entre 7 e 9 meses de idade; para bebês prematuros deve-se considerar a idade corrigida. Esse marco do desenvolvimento motor é esperado após a aquisição de algumas habilidades, como controle cervical completo, pivotear, extensão dos cotovelos em pronação, sentar com mínimo apoio e conseguir permanecer ajoelhado com apoio à frente. No início, é comum que os bebês se coloquem em pé utilizando elementos do ambiente, como, por exemplo, sofás, cadeiras e mesinhas, usando-os como suporte para testar a força de suas pernas. Desta forma, se, por exemplo, a mobília for muito alta, pode tornar-se uma barreira. Portanto, é sempre importante observar se o ambiente está adequado, de forma que favoreça a realização desta habilidade. Lembrando que este processo é gradual e varia de bebê para bebê, dependendo do ritmo de desenvolvimento motor e das oportunidades e estímulos recebidos. É importante proporcionar um ambiente seguro e encorajador para que a criança explore suas habilidades com confiança

Os bebês não devem ser colocados em pé antes dos nove meses de idade, a menos que espontaneamente se coloquem nessa postura, ou seja, quando já se puxam para em pé sozinho. Cabe salientar que a partir do nono mês a descarga de peso em ortostase (em pé) é essencial para o desenvolvimento. Existe uma relação entre a importância dos bebês começarem a se colocar em pé e a formação óssea do quadril, pois a mesma está diretamente ligada ao desenvolvimento da articulação coxofemoral, que conecta o fêmur à pelve. Durante os primeiros meses de vida, essa articulação ainda está em processo de maturação, e o encaixe da cabeça do fêmur no acetábulo se desenvolve conforme a criança começa a sustentar o peso sobre as pernas. O estímulo mecânico gerado pelo ato de ficar em pé e posteriormente andar é fundamental para modelar essa cavidade, garantindo uma articulação mais estável e funcional.

Além disso, o fortalecimento muscular ao redor do quadril desempenha um papel importante na estabilização dessa articulação. Quando os bebês começam a ficar em pé, os músculos do glúteo médio e mínimo, assim como os músculos adutores e flexores do quadril, são ativados de forma mais intensa. Esse fortalecimento muscular ajuda no alinhamento biomecânico e na melhor distribuição das forças sobre a articulação, reduzindo o risco de desalinhamentos, luxações ou displasias de quadril - condições em que o encaixe entre o fêmur e o acetábulo não se forma corretamente.
Desta forma, do ponto de vista biomecânico, a partir do nono mês de vida, é importante que os bebês comecem a se colocar em pé, pois esse movimento fortalece a musculatura das pernas, quadris e tronco, preparando-os para os primeiros passos. Ficar em pé exige um aumento significativo do controle postural, da coordenação motora e do equilíbrio, habilidades fundamentais para a locomoção independente. Esse processo também envolve o desenvolvimento do tônus muscular de forma adequada, permitindo que o bebê suporte seu próprio peso e faça ajustes corporais para se manter estável.

Outro fator biomecânico relevante é o desenvolvimento da propriocepção, que é a capacidade do corpo de perceber sua posição no espaço. Ao se colocar em pé, o bebê começa a aprimorar o controle sobre seus movimentos, ajustando o centro de gravidade e a distribuição do peso corporal. Esse aprendizado gradual é essencial para que, futuramente, consigam caminhar com segurança, evitando quedas e desenvolvendo um padrão de marcha mais eficiente.
Agora vamos pensar em uma criança com desenvolvimento atípico que já está com nove meses de vida, mas ainda não sustenta descarga de peso nas pernas, ou seja, não apresenta um repertório motor para se colocar em pé sozinha, seja por alteração de tônus ou por qualquer outra condição. Independente das aquisições motoras anteriores, o fisioterapeuta deve proporcionar que a criança realize descarga de peso, para que ela não tenha prejuízos em seu desenvolvimento, a curto, médio ou longo prazo. Cabe ao profissional que acompanha avaliar os recursos necessários para proporcionar o melhor alinhamento biomecânico durante a ortostase, a qual deve ocorrer por pelo menos uma hora por dia.

É essencial que a família seja orientada sobre como colocar a criança em pé em casa, através de facilitação, se necessário. A facilitação pode ser realizada de diversas maneiras, através do uso das mãos na articulação dos joelhos do bebê, do uso de faixas neuro para alinhamento, talas de lona, parapodium ou suporte de cabeça caso a criança não tenha controle cervical. A escolha dos dispositivos varia de acordo com as necessidades individuais de cada criança, e deve sempre ser priorizado que a descarga de peso ocorra com mínimo auxílio externo e de forma mais ativa possível.

QUANDO É ESPERADO QUE OS BEBÊS COMECEM A ANDAR E QUANDO É INDICADA A PRESCRIÇÃO DE ANDADOR ORTOPÉDICO (TREINADOR DE MARCHA)?
O caminhar é uma construção, antes da aquisição do andar independente: os bebês já vivenciaram diversas posturas e transferências posturais. Os primeiros passos geralmente são observados entre 10 e 18 meses, sendo mais frequente iniciarem essa exploração por volta de 12 a 14 meses de vida; atentar-se para bebês que ainda não começaram a deambular (caminhar) e já estão com idade acima de 15 meses, lembrando que para bebês prematuros deve-se considerar a idade corrigida.

O uso do andador terapêutico para bebês é indicado em casos de necessidades específicas, como importante atraso motor, fraqueza muscular, alterações neurológicas que afetem o tônus muscular ou outras condições que dificultem a aquisição da marcha independente. Aqui não estamos nos referindo àqueles andadores que são contraindicados por inúmeros malefícios já muito bem descritos na literatura, mas sim de um treinador de marcha (andador terapêutico/ortopédico), conforme a imagem.

O momento ideal para prescrição varia conforme a condição da criança e sua capacidade motora. Em geral, pode ser indicado por volta de doze meses de vida, caso o bebê apresente dificuldade para sustentar o peso, significativo atraso motor, não evolua na postura ou tentativa de ficar em pé e/ou apresentar importante déficit no controle de tronco. Então, se, por exemplo, por volta de doze meses não for identificado que o bebê tem prognóstico de marcha independente para antes de completar 24 meses de vida, é necessário que a equipe discuta e avalie se há indicação de prescrição de um andador terapêutico.
Existem diversos modelos de treinadores de marcha; a escolha do tamanho e do modelo é realizada pelo fisioterapeuta e/ou médico, sempre respeitando as necessidades individuais de cada paciente, visto que a necessidade de suporte varia e precisa ser considerada na escolha.

O uso do andador terapêutico deve ser acompanhado por um profissional, que fará ajustes no equipamento conforme a necessidade da criança. Além disso, o andador deve ser utilizado em conjunto com outras intervenções, como a fisioterapia, para garantir que a criança desenvolva força, equilíbrio e coordenação de forma segura e progressiva. Cabe salientar que não é porque a criança tem indicação de usar um andador que não terá prognóstico de marcha independente a médio ou longo prazo, e que a introdução no momento apropriado pode ajudar a desenvolver a força muscular, equilíbrio e melhorar o desfecho de marcha.

Fonte: Tatiane Paludo
Mestre e Doutoranda em Ciências da Reabilitação pela Universidade
Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), pesquisadora
sobre avaliação e follow-up de bebês prematuros.
tatiane.paludo@yahoo.com.br
Instagram: tatianepaludofisiobebes